quinta-feira, 31 de maio de 2012

Questão de química





Questão de química

Instruções:

Não use lápis nem caneta, apenas a imaginação. Aceitam-se todas as rasuras.

Em 1921, E. Rutherford e J. Chadwick relataram que, ao bombardear átomos de nitrogênio com partículas alfa (núcleos de Hélio), ocorria a liberação de prótons. Posteriormente, eles afirmaram:

             Não há informação sobre o destino final da partícula alfa. É possível que ela
             se  ligue, de  alguma maneira, ao  núcleo  residual. Certamente  ela   não  é      
             reemetida pois, se assim fosse, poderíamos detectá-la.
           

Anos mais tarde, P. Blackett demonstrou que, na experiência relatada por Rutherford e Chadwick, havia apenas a formação de um próton e de outro núcleo X. também lembrou que, na colisão da partícula alfa com o átomo de nitrogênio, deveria haver conservação de massa e de carga nuclear.

Agora, seu filho da puta, com base nas informações acima, escreva a equação nuclear representativa da transformação que ocorre ao se bombardear átomos do isótopo 14 do nitrogênio com partículas alfa ou com poemas oxidados de nitronuvens de massa desconhecida.

Irresolução

A questão parte de um pressuposto anticientífico, o de que há a possibilidade de construção de resposta, quando, na verdade, já não há sequer perguntas. Mas jogando com as regras implícitas na formulação do enunciado, observamos um fenômeno estranho.

a) A perspectiva de intervenção violenta dos cientistas na natureza (golpe, pancada, bombardeio de átomos, violência do destino sobre corpo e alma, exatamente como nós dois fazemos, arremessando-nos o tempo todo acusações e culpas) relaciona conhecimento e fratura, constituindo-se a razão instrumental em uma enciclopédia de ruínas, a exemplo dos gestos que inscrevemos, eu e você, em nossos corpos infectados de rugas e solidão. 

b) A liberação dos prótons aponta para o processo de indeterminação da liberdade. O próton transforma a solidez do lugar demarcado em instabilidade de rumo, inaugura a invisibilidade como um caminho onde nós dois entramos no inapreensível. O caráter instável da matéria forma a sinonímia de fuga e movimento. Sim, veja o vestido grená e o capuccino no último setembro.

c) Nada sei sobre a sua massa nuclear. A órbita do seu perfume a anos-luz de distância me transforma em sombra residual do seu traçado. Radares e instrumentos de aferição corporal não detectam nenhuma pulsação no horizonte. Concluo, portanto, que o núcleo residual comprova a experiência da vida real como vestígio, resíduo de uma plenitude irrealizável.

d) O experimento investiga colisão, tangência, proximidade, afastamento. A ciência transita entre o mundo real e o universo fantasma (você, estrela irrecuperável de uma galáxia autofágica).

e) Se a partícula alfa me ligasse, haveria a reconstituição do núcleo (digamos, por amor à precisão, que com uma nova tonalidade, entre ocre e laranja, resultado de um excesso de neutrinos).

f) Qualquer experimento que apresente resultados positivos deve ser anulado. Justamente por sermos inviáveis, eu e você, deveríamos transformar a lei da gravidade relativa e construirmos um campo magnético em que nos bombardeássemos e nos amássemos até o final dos tempos. Anulados na matéria escura do universo, sairíamos livres e incapturáveis em alguma cidade dos mundos paralelos, tragados pelo aberto da existência.

g) Quanto à equação, nada posso revelar: é secreta.

Um comentário:

  1. Cuidado, meu caro, todos os segredos estão sendo desvendados.

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